O Bitcoin mantém sua posição em um cenário no qual quase nenhum outro ativo se sustenta. Nos últimos sete dias, o BTC valorizou cerca de 3,5%. Já o ouro, tradicional refúgio durante períodos de tensão geopolítica, apresenta desempenho praticamente estável na semana, com recuo de -0,05%. Essa diferença ocorre mesmo com a alta do Índice do Dólar (DXY) e com o avanço do Brent, ambos fatores que normalmente pressionam ativos de risco.
Dados on-chain mostram que a demanda de compra nos Estados Unidos está retornando por meio da Coinbase. Além disso, uma divergência de alta no RSI permanece, enquanto investidores com foco de médio a longo prazo acumulam ativos de forma intensa. A dúvida agora é se esse movimento será suficiente para levar o BTC além dos US$ 70 mil, patamar que rejeitou todas as últimas tentativas de valorização.
O Coinbase Premium Index, que monitora a diferença de preços do Bitcoin entre a Coinbase e exchanges offshore, ficou positivo pela primeira vez em março. Segundo a CryptoQuant, o índice atingiu +0,00283 em 2 de março, sinalizando importante mudança após um período negativo iniciado em 15 de janeiro e que seguiu até 23 de fevereiro.
Esse período negativo durou quase 40 dias, refletindo pressão vendedora constante de investidores e instituições dos Estados Unidos durante a correção a partir de US$ 90 mil. O cenário começou a mudar no fim de fevereiro. O prêmio virou positivo em 24, 25 e 26 de fevereiro, voltou a cair brevemente e retornou ao campo positivo em 2 de março. Foram assim quatro dias positivos em cerca de uma semana desde 24 de fevereiro, após uma das sequências negativas mais expressivas dos últimos tempos.
O momento é relevante. Quando o prêmio da Coinbase ficou positivo pela primeira vez em 24 de fevereiro, o Bitcoin respondeu com um salto de quase 13%, chegando a testar várias vezes os US$ 70 mil. Desde então, esse patamar se firmou como forte resistência, mas o sinal de demanda dos investidores norte-americanos permanece presente.
Outro fator é o sinal de alta do índice de força relativa (RSI), indicador de momentum no gráfico diário. Entre 25 de janeiro e 1º de março, o preço do Bitcoin registrou uma mínima mais baixa enquanto o RSI de 14 dias formou uma mínima mais alta — uma clássica divergência altista, indicando possibilidade de reversão.
O preço superou brevemente os US$ 70 mil antes de recuar, mas a estrutura se mantém. O RSI segue em trajetória de mínimos ascendentes, enquanto o preço mantém mínimas inferiores ao registrado no fim de janeiro, sustentando a configuração para recuperação.
Com o prêmio da Coinbase e a divergência de alta do RSI atuando simultaneamente, as condições para uma retomada consistente começam a se formar.
O sinal de demanda não se limita à Coinbase. Dados da Glassnode sobre o Hodler Net Position Change do Bitcoin, que acompanha a acumulação por carteiras que mantêm BTC por 155 dias ou mais, mostram grande aumento na atividade dos investidores de médio a longo prazo.
Em 6 de fevereiro, quando o Bitcoin era negociado acima de US$ 70.500, a variação líquida da posição de investidores com mais de 155 dias estava em 3.399 BTC, sinalizando acumulação moderada. Em 3 de março, com o Bitcoin a um preço ligeiramente inferior, em US$ 68.300, esse número saltou para 27.225 BTC, aumento de quase oito vezes em um valor mais baixo.
Esse cenário chama a atenção porque indica aumento da convicção entre investidores de médio e longo prazo, mesmo com a oscilação do BTC no curto prazo. Carteiras que mantêm o ativo por pelo menos 155 dias optam por ampliar posições nos preços atuais, considerando o intervalo entre US$ 67 mil e US$ 70 mil como uma possível zona de acumulação, não de distribuição.
Com a volta do prêmio da Coinbase, observa-se demanda de dois grupos distintos: compradores spot dos EUA e investidores de longo prazo, ambos ativos mesmo com a incerteza macro global. Essa convicção se destaca ainda mais ao comparar com o desempenho do ouro, tradicional porto seguro financeiro, diante do mesmo cenário.
O ouro, ativo que dominou a narrativa de porto seguro em 2025 e início de 2026, apresenta volatilidade justamente quando o Bitcoin mantém estabilidade.
A XAU/USD superou US$ 5.400 há algumas sessões. Desde então, recuou cerca de 8%, chegando a cair temporariamente abaixo do patamar psicológico de US$ 5 mil.
O ativo é negociado próximo de US$ 5.170, com desempenho semanal praticamente estável em -0,05%.
Enquanto isso, o cenário macroeconômico deveria, em tese, favorecer o ouro. O barril de Brent ultrapassou US$ 78, impulsionado por tensões geopolíticas e preocupações com o fornecimento.
A elevação nos preços do petróleo intensifica as expectativas de inflação, o que reduz as chances de cortes de juros e favorece o dólar. O DXY acompanhou essa tendência, subindo para 99.076.
Mesmo assim, o ouro passou por correção e perdeu ritmo, enquanto o Bitcoin acumulou alta de 3,5% na semana. Um dólar mais forte geralmente pressiona ambos os ativos, porém o BTC tem absorvido essa pressão de modo que o ouro não consegue neste momento.
Essa diferença gera um questionamento relevante. Seja por conta de uma possível migração estrutural do ouro para o Bitcoin ou por dinâmicas de demanda distintas, os dados mostram um cenário claro. O interesse de compra dos EUA volta ao BTC, investidores com perfil de médio a longo prazo seguem acumulando fortemente, enquanto a estrutura de recuperação diária permanece inalterada. O ouro, apesar dos ventos favoráveis de contexto geopolítico, não conseguiu sustentar sua valorização.
Com o lado da demanda estabelecendo uma base, a estrutura de preço do Bitcoin atual aponta agora para US$ 70 mil como o patamar decisivo.
Considerando as extensões de Fibonacci traçadas a partir da mínima de 6 de fevereiro (uma tendência de alta suave desde então), a zona de US$ 70 mil–US$ 70.100 converge com o nível Fib 0,618. Este foi o limite em todas as tentativas de valorização desde meados de fevereiro. O Bitcoin chegou a romper temporariamente US$ 70 mil, mas não conseguiu fechar o dia acima desse patamar.
Se Bitcoin registrar um fechamento diário acima de US$ 70.100, abre-se caminho para US$ 72.200 (Fib 0,786). Na sequência, pode haver potencial de recuperação até US$ 74.900 (extensão 1,0).
Entre os suportes, US$ 67.200 (Fib 0,382) aparece como o mais próximo e relevante. Uma perda deste nível expõe o ativo a US$ 65.400 (Fib 0,236). O patamar estrutural mais importante está em US$ 62.400, que representa a base da atual faixa de Fibonacci. Se houver confirmação abaixo de US$ 62.400, o caminho pode se abrir para US$ 60.100.
No cenário atual, o fortalecimento da demanda dos EUA identificado pelo prêmio Coinbase, a forte acumulação por investidores, a divergência de RSI mantida e a força relativa do Bitcoin frente ao ouro convergem no mesmo ponto. A barreira dos US$ 70 mil se mantém como teste central. Um rompimento acima desse nível pode alterar a narrativa do Bitcoin de resiliência para recuperação.
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