O Ibovespa, principal índice da Bolsa de Valores brasileira (B3), encerrou a sessão desta quarta-feira (18) em queda de 0,43%, aos 179.639,91 pontos, acompanhando a piora do ambiente externo após os Estados Unidos optarem pela manutenção da taxa de juros entre 3,5% e 3,75% ao ano, movimento que já era amplamente aguardado pelo mercado.
A virada no sentimento do mercado ficou mais intensa após o presidente do Federal Reserve (Fed), Jerome Powell, afirmar que a autoridade monetária ainda não vê condições para iniciar o ciclo de corte de juros sem sinais mais claros de desaceleração da inflação.
Segundo ele, embora o processo de controle dos preços esteja em andamento, o avanço ainda é considerado insuficiente para justificar uma flexibilização da política monetária. Powell também deixou claro que uma eventual elevação dos juros permanece no radar, caso o cenário econômico volte a pressionar a inflação.
No Brasil, o movimento pressionou os ativos locais, sobretudo os setores mais sensíveis ao fluxo de capital internacional, como bancos e commodities.
Entre os destaques do pregão, a forte alta do petróleo no mercado internacional, que avançou quase 4%, ajudou a limitar as perdas do índice. As ações da Petrobras registraram ganhos de 1,77% (ON) e 1,34% (PN). Na ponta oposta, os papéis da Vale recuaram 2,32%.
O setor financeiro também operou em queda. As ações de Itaú Unibanco, Bradesco e Banco do Brasil registraram perdas superiores a 1%, enquanto os papéis do Santander Brasil (Unit) recuaram 1,5%.
Entre as maiores altas do dia figuraram Eneva, que disparou 15,08%, e Copel, com avanço de 5,56%. Do lado negativo, Hapvida liderou as perdas do dia, em queda de 4,76%.
No câmbio, o dólar encerrou o dia em alta de 0,9% frente ao real, cotado a R$ 5,24, após declarações do presidente do Federal Reserve, Jerome Powell, que reduziram as apostas de cortes de juros nos Estados Unidos no curto prazo.
No cenário internacional, a continuidade do calendário de política monetária mantém pressão sobre os mercados globais. Nas primeiras horas desta quinta-feira (19), o Banco do Japão (BoJ) manteve a taxa básica de juros em 0,75% e alertou para riscos de inflação impulsionada pelo petróleo devido à forte dependência do país de importações de energia.
Ao longo do dia, a Europa aguarda as decisões do Banco Central Europeu (BCE) e do Banco da Inglaterra (BoE), que tendem a manter as taxas de juros inalteradas.
A escalada do conflito no Oriente Médio também atua como fator de atenção que impulsiona a queda dos índices globais nesta manhã. Os preços do Brent são negociados a cerca de US$ 114 por barril, após o Irã atacar instalações energéticas no Oriente Médio em resposta ao bombardeio de Israel ao campo de gás South Pars.
Os impactos dos ataques levaram o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump a fazer um apelo pela desescalada do conflito, após ataques semelhantes à infraestrutura energética na Arábia Saudita e nos Emirados; que aumentaram o risco de danos permanentes à infraestrutura e ao fornecimento de energia da região.
“ISRAEL NÃO FARÁ MAIS ATAQUES”, disse Trump na rede Truth Social; “se o Irã continuar seus ataques às instalações de GNL do Catar, os EUA destruirão massivamente todo o campo de gás de South Pars com uma força e potência nunca antes vistas ou testemunhadas pelo Irã”, declarou o presidente.
No Brasil, a disparada do petróleo acima de US$ 112 na sessão eletrônica não impediu o Copom de iniciar o ciclo de corte com 0,25pp e embutir no comunicado um sinal implícito da continuidade dos cortes da Selic.
O mercado aguarda novo ajuste de 0,25 p.p em abril, de acordo com o posicionamento do Banco Central (BC), de que pode acelerar o ritmo de flexibilização se a guerra for finalizada até lá ou diante da acomodação dos preços do petróleo.
A decisão tem gerado questionamentos entre economistas. Em entrevista ao Valor, o ex-BC e atual economista do ASA, Fabio Kanczuk, afirmou não ver fundamentos claros para a redução dos juros neste momento. Segundo ele, ainda não há sinais consistentes de que a inflação esteja em trajetória segura de convergência para a meta de 3%.
No mercado, parte dos analistas avalia que o Banco Central pode estar apostando em uma desaceleração mais forte da atividade econômica nos próximos meses. Essa leitura ajudaria a justificar a confiança da autoridade monetária de que eventuais pressões inflacionárias não devem se espalhar pela economia — mesmo diante das incertezas trazidas pela escalada do conflito no Oriente Médio.
As Bolsas da Europa operam em forte queda em meio à escalada da guerra no Oriente Médio e na expectativa pelas decisões de BCE e BoE, que devem manter as taxas de juros inalteradas.
Ações de mineradoras, diante da baixa dos preços do ouro, e do setor financeiro são as que mais pressionam os índices.
Na Ásia, os índices fecharam o pregão desta quinta-feira em terreno negativo, seguindo a queda de Wall Street após a decisão do Fed sobre os juros.
Entre os índices, o Nikkei liderou as perdas após o BoJ deixar os juros inalterados e alertar para riscos de inflação impulsionada pelo petróleo devido à forte dependência do país de importações de energia.
O membro do conselho Hajime Takata discordou e defendeu alta de 25 pb, o que evidencia a crescente preocupação do conselho de que as persistentes pressões sobre os preços possam exigir uma resposta mais firme.
Em Nova York, os índices futuros abriram em queda, pressionados pela escalada do conflito no Oriente Médio, que impulsiona os preços do petróleo e aumenta as preocupações do mercado com novas pressões inflacionárias.
Confira os principais índices do mercado:
No EUA, no comunicado após a decisão sobre os juros, Powell afirmou que ainda é cedo para avaliar a duração e os impactos do conflito geopolítico em curso sobre a economia global. Segundo ele, durante a reunião mais recente do banco central americano foi levantada a possibilidade de um novo aperto na política monetária.
A decisão do Federal Reserve foi praticamente unânime. Apenas Stephen Miran, considerado um aliado político de Donald Trump, votou por um corte de 25 pontos-base na taxa de juros. Nem mesmo Christopher Waller, frequentemente visto pelo mercado como um dirigente de perfil mais dovish, acompanhou a proposta, optando pela manutenção dos juros.
Os investidores ainda acompanham a divulgação dos novos dados semanais de pedidos de auxílio-desemprego, indicador relevante para avaliar a resiliência do mercado de trabalho e calibrar as expectativas sobre os próximos passos da política monetária.
No Reino Unido, o quadro do mercado de trabalho segue mostrando sinais de enfraquecimento. A taxa de desemprego atingiu 5,2% em janeiro, repetindo o patamar registrado nos três meses anteriores e permanecendo no nível mais elevado em quase cinco anos.
No Brasil, a agenda econômica traz a segunda prévia do IGP-M de março. O Banco Central também volta a atuar no mercado cambial por meio do chamado “casadão”, com leilão simultâneo de swap reverso e venda de dólar à vista. A operação está prevista para as 9h30, com oferta de até US$ 1 bilhão em cada instrumento.
No campo político, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva participa às 11h da abertura da 17ª Caravana Federativa, na cidade de São Paulo. Já à noite, durante evento em São Bernardo do Campo, deve anunciar a candidatura de Fernando Haddad ao governo paulista.
Nos bastidores da equipe econômica, Haddad também afirmou que a indicação de Dario Durigan para substituí-lo no comando do Ministério da Fazenda “está bem encaminhada”.
No Congresso, a votação do projeto de lei que cria um mecanismo de resolução bancária foi adiada após impasses entre governo e parlamentares. O presidente da Câmara, Hugo Motta, atendeu ao pedido do relator da proposta, o deputado Marcelo Queiroz (PP-RJ), e retirou o texto da pauta.
A principal divergência gira em torno do dispositivo que permite à União conceder empréstimos ao fundo de resolução bancária para socorrer instituições financeiras em cenários de risco sistêmico.
Nos bastidores, aliados do governo temem que a aprovação da proposta, em pleno ano eleitoral, possa gerar a percepção de uso de recursos públicos para favorecer o banqueiro Daniel Vorcaro, controlador do Banco Master.
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