O Banco Central (BC) decretou nesta quarta-feira (21) a liquidação extrajudicial da Will Financeira S.A. Crédito, Financiamento e Investimentos, conhecida como Will Bank, instituição integrante do conglomerado Master.
A liquidação ocorre após um histórico prolongado de prejuízos relatados por clientes de empresas ligadas aos controladores do Will Bank. Em agosto de 2022, o Monitor do Mercado revelou com exclusividade problemas recorrentes relacionados a um dos principais produtos da instituição à época: o cartão de crédito.
As reclamações envolviam cobranças por serviços não contratados, dificuldades de cancelamento e inclusão automática de produtos pagos. O Will Bank estava sob o controle dos mesmos proprietários da administradora de cartões Avista, que desde 2014 é acusada de causar prejuízos a clientes.
Entre as principais queixas estavam cobranças de “tarifa de avaliação de crédito”, “tarifa de limite excedido”, “tarifa de avaliação de limite”, “tarifa de restabelecimento” e até a assinatura de uma revista publicada pela própria empresa.
O volume de reclamações levou a Defensoria Pública do Espírito Santo a ajuizar uma ação civil pública contra a Avista. Segundo o defensor público Vitor Valdir, foram mais de 300 reclamações registradas na Defensoria e nos Procons do estado.
Além disso, diversos consumidores moveram ações individuais contra a empresa e seus administradores, hoje sócios do Will Bank, como Giovanni Piana Netto e Walter José Piana.
A ação passou a tramitar em 2017 e em julho, período em que o Will Bank intensificou campanhas de marketing com influenciadores, a Avista firmou um Termo de Ajustamento de Conduta (TAC), comprometendo-se a identificar e ressarcir todos os consumidores cobrados sem autorização.
De acordo com o ato assinado pelo presidente do Banco Central, a liquidação do Will Bank foi decretada em razão do comprometimento da situação econômico-financeira, de sua insolvência e do vínculo de interesse evidenciado pelo exercício do poder de controle do Banco Master.
O BC informou ainda que a liquidação ocorreu “por extensão”, citando a liquidação do Banco Master S.A., decretada em 18 de novembro do ano passado. A medida interrompe as atividades da empresa responsável pela captação de recursos e concessão de crédito dentro do grupo.
Naquela ocasião, o Banco Master Múltiplo foi colocado sob o Regime Especial de Administração Temporária (RAET), que permite a continuidade das operações enquanto se busca uma solução de mercado ou a normalização da atividade.
Segundo o BC, havia expectativa de preservação do Will Bank, mas a alternativa não se mostrou viável.
O Banco Central nomeou como liquidante a empresa EFB Regimes Especiais, a mesma responsável pela liquidação de outras instituições do conglomerado Master.
Posteriormente, foi designado como liquidante Eduardo Félix Bianchini, ex-servidor do Banco Central, que já atuou em outros oito processos semelhantes.
O BC determinou ainda a indisponibilidade dos bens dos controladores e ex-administradores da Will Financeira: Will Holding Financeira, Master Holding Financeira, 133 Investimentos e Participações, Armando Miguel Gallo Neto, Daniel Vorcaro, Felipe Wallace Simonsen, Felipe Félix Soares e Ricardo Saad Neto.
Muitos desses bens já estavam bloqueados em razão de liquidações anteriores.
O Banco Central afirmou que a liquidação foi acelerada pelo descumprimento, por parte da Will Financeira, da grade de pagamentos com a Mastercard.
Segundo o regulador, na última segunda-feira (19), a Mastercard informou que a Will Financeira não honrou os pagamentos devidos. No dia seguinte, a bandeira anunciou a suspensão da aceitação dos cartões emitidos pelo Will Bank.
“Assim, tornou-se inevitável a liquidação extrajudicial da Will Financeira, em razão do comprometimento da sua situação econômico-financeira, da sua insolvência e do vínculo de interesse evidenciado pelo exercício do poder de controle do Banco Master S.A., já sob liquidação extrajudicial”, informou o BC.
Em nota oficial, a Mastercard afirmou que “como parte de suas atividades de gestão de risco enquanto arranjo de pagamentos regulado, a Mastercard mantém diferentes tipos de garantias de seus participantes, que podem incluir ativos como ações. Essas garantias têm como finalidade exclusiva assegurar o cumprimento de obrigações de pagamento por parte dos emissores em caso de inadimplemento.”
Com a execução das garantias, a Mastercard ficou com ações do Banco de Brasília (BRB) e da Westwing, oferecidas pelo Will como garantia.
A liquidação do Will Bank pode adicionar até R$ 6,5 bilhões à conta do Fundo Garantidor de Créditos (FGC). Segundo dados do sistema IFData, a empresa possuía R$ 6,507 bilhões em depósitos a prazo em setembro.
O Will Bank tinha cerca de R$ 7,5 bilhões em depósitos que entram no cálculo do FGC. No entanto, o valor exato a ser honrado dependerá da aplicação do limite de até R$ 250 mil por CPF ou CNPJ.
Quando o Banco Master foi liquidado, em novembro, o Will Bank foi preservado porque estava negociando uma venda da unidade para o Mubadala, fundo soberano de Abu Dhabi. Com a pressão do Tribunal de Contas da União (TCU) sobre o BC e o surgimento de suspeitas de fraude, a operação não avançou.
O Will Bank iniciou suas atividades como instituição de pagamento, pouco depois de Felipe Félix iniciar sua atuação na Avista e convencer os controladores a apostar em um banco digital.
No início, o projeto foi apresentado como voltado à inclusão financeira, com foco em clientes de renda média e baixa. Em 2024, após a venda ao grupo Master, houve uma cisão.
O Master ficou com a Will Financeira, que concentrou a carteira e os clientes. A licença de instituição de pagamento foi adquirida pela Reag, de João Carlos Mansur, passando a operar como Reag IP.
Segundo o Banco Central, a liquidação, anunciada nesta quarta-feira, afeta apenas a Will Financeira, não atingindo a Reag IP. A mudança de nome para Reag IP foi autorizada pelo BC em janeiro de 2025. No mês seguinte, o capital foi elevado de R$ 486,4 milhões para R$ 886,4 milhões.
Em setembro, a Reag IP possuía ativo total de R$ 448,6 milhões, sendo R$ 184,4 milhões em títulos e valores mobiliários e R$ 263,8 milhões em outros ativos realizáveis.
Com a execução das garantias, a Mastercard passou a deter 6,93% do capital do Banco de Brasília (BRB), ficando com 11.750.000 ações ordinárias (ON) e 21.934.706 ações preferenciais (PN).
Até a semana anterior, o formulário de referência do BRB indicava participações de fundos administrados pela Reag, pela Master Corretora e pela WNT.
A execução das garantias comprovou que Daniel Vorcaro detinha participação no BRB, hipótese que vinha sendo especulada desde o aumento de capital do banco em 2024.
Segundo fontes próximas ao BRB, no momento do aumento de capital, o cotista dos fundos não tinha relação com o Master, mas as cotas teriam mudado de mãos posteriormente.
A estratégia do Master ao participar do aumento de capital do BRB era fortalecer o patrimônio do banco do Distrito Federal para que ele pudesse continuar adquirindo carteiras do próprio Master.
O BRB adquiriu R$ 12,2 bilhões em carteiras do Master, mas encontrou problemas de documentação e devolveu cerca de R$ 10 bilhões desses ativos.
Em resposta ao Tribunal de Contas da União, o Banco Central informou que “no primeiro semestre de 2025 foi constatada cessão de créditos inexistentes ao BRB, adquiridos pelo Banco Master S.A. de empresa terceira, configurando indícios de crime contra o Sistema Financeiro Nacional”.
Segundo o G1, Maurício Antônio Quadrado, ligado ao Will Bank, foi alvo da segunda fase da Operação Compliance Zero, deflagrada em 14 de janeiro. De acordo com fontes da Polícia Federal, ele seria sócio oculto de Daniel Vorcaro.
Entre 2023 e 2024, segundo investigações, o Master teria desviado cerca de R$ 11,5 bilhões por meio de triangulações com fundos ligados à gestora Reag Investimentos.
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