A intensificação de conflitos geopolíticos e comerciais tem elevado a incerteza no cenário internacional, com impactos diretos sobre a economia de países emergentes, como o Brasil.
No entanto, são desequilíbrios macroeconômicos, especialmente nas contas públicas e o endividamento elevado do Estado, aliado à infraestrutura insuficiente, que limitam o potencial de crescimento do país, aponta o professor da Fundação Getulio Vargas (FGV) e sócio da GO Associados, Gesner Oliveira.
Em entrevista ao Canal Um Brasil, uma realização da FecomercioSP, o professor Gesner também destaca a complexidade da legislação trabalhista e tributária, além da insegurança jurídica, como fatores que inibem investimentos produtivos.
O Monitor do Mercado teve acesso exclusivo à entrevista e traz, em primeira mão, a análise do especialista sobre como reformas internas podem corrigir esses pontos de atenção, para que as vantagens competitivas possam ser aproveitadas.
Na entrevista, o professor da FGV contextualiza que os choques externos aumentam a volatilidade financeira, sobretudo nos mercados de câmbio.
“Quando há crises, choques externos, naturalmente geram variações, sobretudo no mercado de moedas, e as economias emergentes são mais vulneráveis a essas oscilações”, afirmou o economista.
Oliveira destaca ainda que o Brasil, do ponto de vista de contas externas, possui uma posição mais confortável que outros emergentes, o que reduz a intensidade dos efeitos cambiais. Ainda assim, fatores como insegurança jurídica e risco político ampliam a sensibilidade do país aos movimentos globais.
Outro ponto de atenção, segundo o economista, é que o ambiente internacional menos globalizado alterou o padrão dos investimentos. “Hoje, esses fluxos são mais orientados para determinadas áreas, há uma avaliação de risco mais rigorosa. Isso coloca alguns obstáculos, mas também surgem oportunidades com o diferencial competitivo do Brasil”, explica.
Entre os pontos positivos, Oliveira cita a matriz energética brasileira, com mais da metade das fontes renováveis e cerca de 90% da matriz elétrica baseada em energia limpa. O agronegócio também foi apontado como setor competitivo e relevante para o crescimento.
Esses fatores, segundo ele, podem abrir oportunidades em um cenário global marcado pela transição energética e pela busca por segurança alimentar.
Por outro lado, o economista alertou para desequilíbrios macroeconômicos, especialmente nas contas públicas. O endividamento elevado do Estado, aliado à infraestrutura insuficiente, limita o potencial de crescimento.
“O Brasil tem um agronegócio que produz muito mais do que a nossa capacidade de escoar essa produção”, afirmou. Ele também mencionou a complexidade da legislação trabalhista e tributária, além da insegurança jurídica, como fatores que inibem investimentos produtivos.
Segundo o especialista, é necessário realizar reformas internas que corrijam esses pontos de atenção, para que as vantagens competitivas possam ser aproveitadas em sua totalidade. No entanto, é preciso reconhecer que o Brasil tem caminhado na direção correta, porém com lentidão.
Segundo Gesner Oliveira, o excesso de impostos e burocracia estimula a informalidade, reduz a base de arrecadação e não somente desestimula como inibe investimentos.
“Alguém que queira investir num segmento e perceba que tem muita informalidade, não vai investir, não vai inovar e sempre desconfiar de que haja uma concorrência desleal”, disse.
Esse ambiente, de acordo com o economista, também afeta o valor das empresas, ao gerar passivos potenciais e incerteza regulatória, fator observado de perto por investidores institucionais.
Para ele, “romper esse círculo vicioso significa criar um Estado mais eficiente, de forma que tenhamos menos impostos, incentivos à formalização e assim gere incentivos ao investimento e à inovação, além de criar uma base de arrecadação maior e consequentemente menor necessidade de impostos”.
Mesmo com juros reais elevados a quase dois dígitos e crescimento da dívida pública, o Brasil registrou aumento dos investimentos em infraestrutura. Oliveira atribuiu esse movimento à forte demanda reprimida e ao modelo de concessões.
“A lei de concessões é um exemplo da antecipação, da visão de futuro”, afirmou. Segundo ele, contratos de longo prazo e marcos regulatórios permitiram maior previsibilidade, mesmo diante de decisões judiciais adversas em alguns casos.
Para o mercado, o setor segue como uma das principais portas de entrada de capital privado no país.
No contexto dos desafios domésticos, o economista destaca ainda que o baixo crescimento da produtividade está ligado a falhas estruturais na educação. Ele citou déficits na educação infantil, ensino médio de baixa qualidade, além de pouca ênfase na formação técnica, assim como em áreas de ciência e tecnologia (STEM).
Além disso, apontou a perda de talentos para o exterior. “A gente precisa promover o ‘brain gain‘ e quebrar o corporativismo das universidades públicas para trazer os melhores cérebros do mundo”, afirmou, defendendo políticas para atrair e reter profissionais qualificados, além de maior integração entre universidades, empresas privadas e inovação.
Segundo Gesner Oliveira, o funcionamento do sistema democrático e os ciclos eleitorais criam restrições à implementação de reformas estruturais no Brasil. Ele afirma que mudanças necessárias para elevar a produtividade e sustentar o crescimento exigem negociação com a população, partidos, sindicatos e diferentes setores da sociedade, o que tende a alongar o processo decisório.
O economista destaca que, no cenário atual, eleitorados mais exigentes e polarizados aumentam a dificuldade de governos adotarem agendas de médio e longo prazo.
Durante a entrevista, Oliveira observa que indicadores como taxa de desemprego baixa, inflação dentro do intervalo da meta e crescimento do PIB contribuem para uma percepção de normalidade, reduzindo a pressão política por reformas. Esse ambiente, segundo ele, cria uma ilusão de estabilidade que adia decisões estruturais, mesmo diante de desequilíbrios fiscais e previdenciários.
O especialista destaca que historicamente o Brasil só avança em reformas quando crises se tornam agudas: “normalmente é preciso esperar o problema se volumar de tal sorte que o consenso é criado pelo desespero”, afirmou, citando episódios como a hiperinflação, a crise da dívida externa e os problemas previdenciários como gatilhos para mudanças.
Ele defende ainda a necessidade de lideranças capazes de antecipar problemas e comunicar à sociedade os riscos futuros. “É preciso mostrar que existe um precipício lá na frente e sair antes de cair”, disse. Segundo Oliveira, esse tipo de liderança depende de confiança e de uma visão de Estado que ultrapasse mandatos eleitorais.
Ao projetar os desafios futuros, Oliveira afirma que o próximo governo enfrentará uma situação fiscal crítica. “Quando ele sentar na cadeira vai estar no colo dele uma bomba fiscal”, disse.
Segundo o economista, será necessária uma nova âncora fiscal, com desindexação de gastos, revisão de vinculações orçamentárias e racionalização da máquina pública, considerando que a que foi construída nos últimos quase quatro anos não funcionou e foi driblada pelo próprio governo.
Ele também menciona a necessidade de privatizações e de redução gradual da taxa de juros, que tendem a estimular o investimento produtivo e facilitar o financiamento de projetos de longo prazo, especialmente em infraestrutura.
Atualmente, a taxa de investimento do país gira em torno de 17% do PIB. Para um crescimento mais robusto, Oliveira avalia que o patamar deveria se aproximar de 21% a 22%, criando condições para que aconteçam novos investimentos na produção.
Autor do livro Nem negacionismo, nem apocalipse, Gesner Oliveira defende uma abordagem gradual na transição energética.
Segundo ele, tanto a negação dos problemas ambientais quanto propostas de eliminação imediata dos combustíveis fósseis geram distorções. “Ignorar evidências sobre limitações de recursos naturais, aquecimento global e emissão de gases de efeito estufa retarda soluções e eleva os custos econômicos no longo prazo”.
Nesse contexto, Oliveira afirmou que o Brasil possui uma vantagem comparativa relevante. Segundo ele, o país tem uma matriz energética e elétrica mais limpa do que a média global, o que reduz o custo da transição e amplia o espaço para investimentos ligados a energias renováveis, biocombustíveis e infraestrutura de baixo carbono.
O economista reforça que políticas públicas devem buscar uma trajetória de mudança clara e previsível, evitando demonização de fontes de energia ou soluções extremas. Segundo ele, tanto o negacionismo quanto o alarmismo tendem a gerar custos sociais elevados, especialmente para as populações mais vulneráveis, ao encarecer a adaptação econômica e reduzir o espaço para investimentos sustentáveis.
“Não adianta demonizar uma fonte de energia. É preciso criar uma trajetória de mudança de médio prazo”, afirma. Para o Brasil, a transição representa uma oportunidade econômica, dado o perfil da matriz energética nacional.
Assista à entrevista completa, com o professor da Fundação Getulio Vargas (FGV) e sócio da GO Associados, Gesner Oliveira, ao Canal Um Brasil, uma realização da FecomercioSP:
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Os diplomatas devem um total de 164.621.750 de libras, ou R$ 1,1 bilhão, aproximadamente BBC News fonte BBC/Harry LowOs diplomatas devem um total de 164.62