Roma - Houve um tempo em que a arte era uma questão de Estado. Na Roma do século 17, poucas parcerias ilustram isso com tanta clareza quanto a que uniu o napolitano Gian Lorenzo Bernini (1598-1680) à poderosa família Barberini, sob o pontificado de Urbano VIII (1568-1644). Mais do que uma relação entre artista e mecenas, foi uma aliança estratégica que moldou o rosto barroco da capital italiana.

Sem o mecenato da Igreja Católica, simbolizado na figura de seu maior representante, o papa, grande parte desse legado não existiria. Das relações estabelecidas entre a burguesia e criadores que trabalhavam sob encomenda, o modelo vigente à época, nasceram joias arquitetônicas e obras-primas da escultura e pintura.

É para lançar luz sobre esse capítulo fascinante da história que o Palazzo Barberini, uma instituição pública, hospeda, entre 12 de fevereiro a 14 de junho de 2026, a exposição Bernini e i Barberini (Bernini e os Barberini), com curadoria de Andrea Bacchi e Maurizia Cicconi.

O orçamento da retrospectiva é de € 1,2 milhão (R$ 7,6 milhões) e apresenta principalmente tesouros de acervos italianos e alguns empréstimos estrangeiros. “Poucas cidades no mundo podem apresentar uma mostra como essa”, diz o curador Andrea Bacchi, ao NeoFeed.

Ao subir a escada de mármore que leva ao percurso das obras, o visitante já começa a entender o poder do edifício “berniniano” construído em 1625.

Ao assumir o papado, em 1623, o cardeal Maffeo Barberini, nomeado Urbano VIII, fez de Bernini seu protegido. Jovem, talentoso e já reconhecido como prodígio, o escultor, arquiteto e pintor encontrou no pontífice um patrocinador disposto a transformar arte em instrumento de afirmação política e espiritual.

A missão era clara: glorificar o poder da Igreja e da família Barberini por meio de imagens que emocionassem. Naquele tempo, uma família influente precisava imprimir três marcas: eleger um papa, construir uma grande casa e reunir uma coleção de obras-primas para colocar dentro dela. Os Barberini tinham tudo.

A família natural da Toscana, depois estabelecida em Roma, gastava muito dinheiro, ainda que não fossem nobres de estirpe como os Médici, os Borghese ou os Pamphili (eles eram mercadores, vendiam tecidos na rua). Tudo mudou quando Maffeo virou o sucessor de Pedro.

Além de encomendar ao artista a construção de uma casa para a família, o imponente Palazzo Barberini, Maffeo pediu bustos de mármore, pinturas e levou seu pupilo para criar também para o Vaticano.

A mostra tem seis seções, cada uma dedicada a um aspecto fundamental da relação entre Bernini e os Barberini. O percurso acompanha os anos iniciais de carreira do gênio até a maturidade artística absoluta, quando cria uma linguagem própria, diferente de seu pai, Pietro Bernini (1562-1629), que também criava.

Obras como São Sebastião, do Museo Thyssen-Bornemisza, em Madri, e o Putto com Dragão, do J. Paul Getty Museum, simbolizam o momento em que a escultura barroca nasce. A exposição também trará de volta, pela primeira vez, uma galeria de bustos dos ancestrais da influente família, esculturas esculpidas em mármore e bronze, hoje em coleções públicas e privadas.

Palazzo Barberini, casa da poderosa família construída por Bernini
Retrato de Gian Lorenzo Bernini
O baldaquino da basílica San Pietro, onde o Papa reza as missas, também foi feito por Bernini
Escultura no centro da Praça Barberini, no centro histórico de Roma, é um dos exemplos da força barroca da época
Ritratto di Urbano VII, escultura de Bernini do então Papa, seu maior apoiador
Escultura do Monsenhor Francesco Barberini, tio do Papa Urbano VIII
O busto de Costanza Bonarelli, esposa do escultor que trabalhava como assistente de Bernini em 1636, está na exposição

Vale lembrar que o auge da parceria Bernini e Barberini é o Baldacchino (Baldaquino), estrutura decorativa que fica em lugar de destaque, no meio do altar da Basilica di San Pietro. Quando o papa Leão XIV reza missas, é ali que ele se coloca.

Uma série de desenhos, gravuras e modelos ajudam a explicar essa obra-prima, que tem uma história peculiar sobre sua criação. Romanos criticaram a retirada de toneladas de bronze do Pantheon (Panteão), monumento construído entre 118 e 125 d.C., durante o reinado do imperador Adriano (76-138), para construir a relíquia religiosa.

A frase “Quod non fecerunt barbari, fecerunt Barberini” (O que os bárbaros não fizeram, os Barberini fizeram), expressava o descontentamento popular. Além desse patrimônio monumental, o artista também foi responsável pela arquitetura da Piazza San Pietro (Praça São Pedro), em formato circular, com 284 colunas e 140 estátuas de santos no topo.

Em 2026, o complexo católico celebra 400 anos de consagração, momento em que a maior igreja do mundo passou a ser oficialmente dedicada a Deus, com uso exclusivamente sagrado.

Esse legado permitiu que o italiano seguisse produzindo outras obras espalhadas por Roma, como a Fontana dei Quattro Fiumi (Fonte dos Quatro Rios), a Cappella Paolina di Palazzo del Quirinale (Capela Paulina do Palácio Quirinal), o teto da Chiesa di Sant’Andrea al Quirinale (Igreja de Santo André no Quirinal) e esculturas.

Mas a relação entre o poder e arte não durou para sempre. Com a morte de Urbano VIII, em 1644, e a chegada do papa Inocêncio X (1574-1655), adversário dos Barberini, Bernini perdeu espaço e prestígio. Apesar da decadência, recebeu a honra de ser enterrado na Basílica papal Santa Maria Maggiore (Santa Maria Maior), onde também está o papa Francisco (1936-2025).

A exposição convida o público a revisitar essa história. (Re)descobrir Roma sob a ótica barroca e entender como a visão de um artista e a ambição de uma família transformaram a cidade em um símbolo eterno de influência, oferecendo ao mundo uma beleza sem proporções, é uma viagem maravilhosa ao passado. “Roma é Bernini e Bernini é Roma”, ditado que se ouve na capital italiana, se faz mais presente do que nunca.

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