A bolsa brasileira iniciou 2026 com uma performance histórica, impulsionada pela entrada de investidores estrangeiros. O Ibovespa, principal índice de ações, subiu 15% desde o início do ano, chegando a tocar pela primeira vez nos 190 mil pontos. Em dólar, o índice acumula 21% de alta.

Mas nessa festa em que os gringos têm dado as cartas, pouco tem sobrado para os fundos locais. Até 12 de fevereiro, os fundos internacionais acumularam um saldo de R$ 34,67 bilhões em ações adquiridas na bolsa brasileira no mercado à vista. No ano passado inteiro, a entrada líquida de fluxo estrangeiro foi de R$ 23,87 bilhões.

Nesse jogo de soma zero, os fundos locais foram os que mais venderam ações, retirando R$ 27,15 bilhões da bolsa. No mesmo período, pessoas físicas venderam R$ 4,88 bilhões para os estrangeiros; as instituições financeiras, R$ 1,8 bilhão; enquanto outras categorias venderam os cerca de R$ 900 milhões restantes.

O resultado tem sido uma performance aquém do benchmark. Em janeiro, quando o Ibovespa teve sua maior alta mensal desde 2020, subindo 12,45%, os fundos de ações livres tiveram uma performance mediana de 6,98%. No período, fundos de long and short direcionais, que permitem posições compradas e vendidas, tiveram retornos abaixo de 3%.

No ano passado, os institucionais lideraram as vendas para honrar os mais de R$ 50 bilhões de pedidos de resgate. Mas, com a bolsa em alta neste ano, somente R$ 4,9 bilhões saíram dos fundos.

Com as vendas superiores aos resgates, parte relevante desse dinheiro tem ido para o caixa dos fundos, rendendo CDI, enquanto os gestores esperam por uma janela de oportunidade.

Christian Keleti, CEO da Alpha Key, diz estar com níveis de caixa historicamente mais elevados em seus fundos, entre 30% e 40%. “Os valuations de alguns setores, como bancário e de construção civil de baixa renda, estão começando a bater níveis históricos”, diz Keleti.

Além dos preços não tão baratos como no ano passado, o gestor explica que parte dos gestores optou por realizar lucros após um forte 2025 e incertezas eleitorais.

A maior cautela com as eleições, diz o gestor, vem desde que Flávio Bolsonaro anunciou sua candidatura à presidência, frustrando a expectativa de que Tarcísio de Freitas, governador de São Paulo, se candidatasse.

O que o mercado não esperava era que as movimentações de Donald Trump no início do ano, ameaçando anexar a Groenlândia e fazendo incursões na Venezuela, aumentariam ainda mais a demanda por investimentos fora dos Estados Unidos.

Com os mercados estrangeiros sendo um dos destinos finais, o índice MSCI Emerging Markets subiu 11% desde o começo do ano. No Brasil, a principal porta de entrada foi o ETF EWZ, que replica o MSCI Brazil.

Paulo Abreu, CEO e gestor da Mantaro Capital, conta que, mesmo mantendo parte relevante do caixa, conseguiu obter resultados expressivos com opções de compra de EWZ.

A posição, disse o gestor, foi combinada com venda de dólar para que o fundo ganhasse também com a desvalorização da moeda americana. “Foi um EWZ com esteróides”, afirma Abreu.

Depois da forte valorização, o gestor da Mantaro zerou a posição e tem mantido cerca de 21% de caixa em seu fundo de ações long only. No fundo, seus principais investimentos estão concentrados no setor financeiro. Sua maior posição é na B3, por onde pretende se beneficiar do maior fluxo de investimentos na bolsa e se expor à entrada de estrangeiros.

“Estamos tendo essa tendência de realocação global marginal indo para fora dos Estados Unidos. São movimentos que podem ser muito fortes e às vezes até prolongados por alguns anos. Se isso ocorrer, pode haver anos de bonança na bolsa brasileira”, diz Abreu.

Keleti, no entanto, não vê grande espaço para os fundos locais continuarem vendendo ações para os estrangeiros. "Sempre para comprar tem que ter um vendedor. Se esse movimento continuar, é provável que as empresas passem a emitir, com mais anúncios de follow-on."

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