Em 2025, o Brasil cresceu cerca de 2,3%, mesmo em um ambiente de juros elevados e com inflação de 4,3%, e registrou nova queda da taxa de desemprego, segundo avaliação de Mansueto Almeida, sócio e economista-chefe do BTG Pactual, durante o BTG Summit 2026 em São Paulo nesta quarta-feira (25).
Apesar da expansão do PIB e da nova queda da taxa de desemprego também registradas no período, o economista alerta:
Mansueto destaca ainda que o crescimento no período foi puxado pela indústria extrativa, (produção de petróleo) e agricultura, o que, segundo ele, é uma notícia boa; no entanto, pontua que o que salvou o crescimento do ano passado decorreu de fatores estruturais no Brasil que vêm acontecendo há anos.
“O ano de juros muito altos machuca bastante o varejo e a indústria de transformação. Olhando para o índice agregado do crescimento, fomos salvos pela indústria extrativa (produção de petróleo), enquanto produtores mais sensíveis ao crédito tiveram comportamento ruim”, ressaltou.
Mansueto resgata dados de crescimento ao longo dos anos, que superaram as estimativas do mercado desde 2021:
O mercado projeta juros de 12% ao fim do ano e inflação de 3,9%, o que implica juro real elevado, próximo de 8%.
Mansueto atribui como resposta ao cenário de juros altos o crescimento do gasto público excessivo no país. Segundo o especialista, somados os últimos quatro anos e o que já está aprovado para gasto do setor público do governo federal este ano, teremos um crescimento real de 20%, o que é considerado alto diante do cenário de desemprego em queda, a uma taxa de 5,1%.
O especialista avalia: “um governo que gasta muito puxa a inflação para cima e a única forma de trazer a inflação para baixo é trabalhando com a maior taxa de juros real do mundo. Então, isso não é equilíbrio”.
Neste ano, a Bolsa brasileira acumula alta de 25% em dólar, considerando a valorização frente ao real. Mansueto estabelece a comparação do desempenho do câmbio no início do ano passado, quando a taxa era R$ 6,20, e hoje está R$ 5,15. Apesar do bom desempenho o economista, destaca que uma parte grande desse movimento vem de fora.
Segundo o economista-chefe do BTG, os Estados Unidos, há mais de cinco anos, é o grande absorvedor de liquidez do mundo, mas no momento que se tem um pouco de incerteza da política econômica do governo americano, ocorre a rotação de carteira; movimento muito nítido, mesmo que seja num volume pequeno, de um dinheiro que deixa de entrar nos Estados Unidos, ou que sai do país para a América Latina e o Brasil.
De acordo com dados divulgados nesta semana, China e Brasil foram os dois países que mais captaram recursos entre emergentes em renda variável e renda fixa. Segundo Mansueto, esse movimento muito forte de bolsa e de valorização da nossa moeda foi atraído por dois motivos: os juros muito altos e o clima de incerteza nos Estados Unidos, que levou a rotação de carteira como uma forma de proteção.
Durante o evento, o economista ressaltou que o crescimento de 2025 foi sustentado principalmente pela indústria extrativa, com destaque para a produção e exportação de petróleo, e pela agricultura.
Segundo Mansueto, a agricultura é o único setor da economia brasileira que, há mais de 30 anos, apresenta crescimento consistente de produtividade acima de 3% ao ano.
Ele reforçou que o avanço decorre de fatores estruturais acumulados ao longo do tempo, não de políticas recentes. Enquanto isso, setores dependentes de crédito sofreram impacto direto.
A indústria de transformação, que havia crescido 4% em 2024, registrou queda de 0,2% em 2025.
Em sua exposição no evento, Mansueto chamou atenção para o nível dos juros de longo prazo, hoje próximos de 7% reais ao ano.
Para o economista, os juros longos são um termômetro do risco percebido pelo investidor ao financiar o governo brasileiro por prazos de 10, 20 ou 30 anos.
Segundo Mansueto, os problemas do Brasil hoje são exatamente os mesmos do final de 2024, que foi um ano muito ruim, considerando a decepção com a política e com os programas fiscais que o governo prometeu para anunciar após a eleição municipal.
Em 2024, o real acumulou desvalorização de 27%, ficando entre as cinco piores moedas do mundo. O movimento ocorreu após o anúncio, em novembro daquele ano, de um pacote fiscal que buscava controlar gastos e ampliar a faixa de isenção do Imposto de Renda.
O mercado reagiu negativamente diante da incerteza sobre o tamanho do ajuste, “porque não sabia se seria um programa de 30, 40, 60, 80 ou 100 bilhões de reais”, segundo o especialista.
“Isso colocou a nossa moeda entre as cinco piores do mundo em 2024. E a gente começou 2025 com a curva de juros sinalizando que o Brasil seria um país que nos próximos 10 anos teria juros nominais de 16% ao ano. Os problemas do Brasil hoje são exatamente os mesmos do final de 2024: no final desse ano, o juro real ficou entre 7,5% e 8%. Ele hoje é um pouco menor, mas 7% de juro real no título de longo prazo, isso não é equilíbrio em nenhum lugar do mundo”, concluiu.
O desemprego encerrou o ano de 2025 a uma taxa de 5,1%; no entanto, Mansueto destacou a redução da taxa de participação — indicador que mede quantas pessoas em idade ativa estão trabalhando ou procurando emprego.
Segundo ele, se parte dessas pessoas não tivesse deixado o mercado de trabalho, o desemprego poderia estar em 5,8%. Ele afirmou ainda que ninguém consegue explicar a queda da participação no segundo semestre, quando a economia já mostrava sinais de enfraquecimento.
Outro ponto de atenção, segundo o economista, é que o crescimento forte do desemprego do ano passado ocorreu em setores pouco sensíveis a juros. Saúde, educação e tecnologia de informação, contexto agravado pela maior contratação de estados e municípios.
“Considerando a PNAD desde o início da série histórica, em 2012, no ano passado, tivemos a maior participação de empregados do setor público na força de trabalho. Precisamos nos atentar ao fato de que o próximo governo terá que, necessariamente, controlar o crescimento do gasto público, senão teremos um cenário desafiador e com riscos muito maiores do que os dos últimos quatro anos”, destaca Mansueto.
Mansueto menciona que o crescimento do gasto ligado à Previdência no Brasil tem um fator incomum a outros países no cenário de aumento real do valor das aposentadorias — em geral, os países do mundo como França, Espanha e Estados Unidos protegem o valor da aposentadoria, que no início do ano são corrigidas pela inflação.
Já no Brasil, cerca de 50% do gasto previdenciário tem um aumento real nos valores das aposentadorias, isso porque no Brasil, a aposentadoria é vinculada ao salário mínimo.
O economista destaca dados divulgados nesta quarta-feira que comprovam o mercado de trabalho ainda muito aquecido e considera que a atual dinâmica do mercado de trabalho com baixo índice de desemprego puxa o salário de contratação para cima, fatores que dispensariam aumentos reais tão grandes do salário mínimo.
Segundo Mansueto, isso afeta o gasto com previdência e torna muito difícil qualquer ajuste fiscal.
Mansueto destaca a melhora dos números fiscais no último ano, no entanto, ela é atribuída ao aumento da arrecadação de impostos e não à redução dos gastos públicos.
“No início desse governo, em 2023, o déficit primário foi de 2,4% do PIB, equivalente a 240 bilhões de reais. A gente vai terminar esse governo com um déficit primário em mais ou menos 50 bilhões de reais, que corresponde a uma melhora de 2 pontos do PIB. Só que grande parte dessa melhora não veio do controle de gasto, veio de aumento de carga tributária, ” esxplica.
O economista complementa que o governo, consistentemente, foi atrás de mais receita, alguma justificada e outra não. E, ao mesmo tempo em que quer incentivar o crédito, aumenta a IOF, que é o imposto sobre o crédito.
“Em relação a janeiro do ano passado, tivemos um crescimento real da arrecadação de aproximadamente 3,4%. Podemos olhar para os próximos 2, 3 ou 4 anos, para o próximo governo, e acreditar que todos os anos a arrecadação crescerá acima do PIB? Não, porque o Brasil tem a maior taxa de juro real do mundo”, afirmou.
Relatório do Tesouro Nacional divulgado em janeiro estima que a dívida pública encerrará o governo em 83,6% do PIB, pior que a previsão do mercado.
Entre 2023 e 2026, destaca Mansueto, o crescimento médio anual deve ficar próximo de 2,5%, enquanto a dívida avançará entre 10 e 12 pontos percentuais do PIB, de forma que o país termine esse governo com a dívida acima de 80% do PIB.
“Para a gente sonhar em recuperar o grau de investimento, a gente vai ter que mudar essa dinâmica da dívida, por meio do esforço fiscal do governo para mostrar ao mercado que o crescimento do gasto será menor, logo a pressão inflacionária será menor e nós poderemos receber juros menores”, alertou o economista.
“No primeiro ano desse governo, o déficit nominal foi de 8,8% do PIB e vai terminar com déficit nominal de 8,4%. O déficit nominal de 8% do PIB é um número muito alto para o padrão de desequilíbrio que temos hoje em vários países do mundo”, explicou.
Enquanto países como Inglaterra, França e os Estados Unidos, que também lidam com problema fiscal, o déficit nominal varia entre 5% e 6% do PIB, no Brasil é de 8,5%. Isso, segundo Mansueto, leva a uma pressão de juros que agrava o crescimento da dívida pública. Para o próximo governo, segundo o especialista, o maior desafio será controlar o crescimento do gasto público.
Projeções do BTG apontam que 2026 deve terminar com déficit primário de 0,4% do PIB, com juros em 12%, que é um juro real considerado alto, uma vez que a inflação esperada é 3,9%.
Para 2027, é prevista uma taxa de juros de 10,5%, que ainda permanecerá em dois dígitos, além da inflação de 3,5%. O economista, no entanto, alerta que qualquer mudança, por menor que seja, pode abalar essas projeções.
Ele concluiu que, sem mudança estrutural na trajetória das despesas, o país continuará operando com juros reais elevados, crescimento moderado e pressão sobre a dívida pública — fatores que influenciam decisões de investimento de longo prazo.
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