A pintura, em geral, oferece algo ao olhar: uma cena, um gesto, o rastro do pincel sobre a superfície. Antonio Dias (1944-2018), porém, subtraiu a imagem e pintou a palavra. “A palavra escrita como uma possibilidade de criar uma imagem mental (não-pintura)”, anotou ao pleitear uma bolsa da Fundação Guggenheim, em 1971.
É esse gesto que aparece em Image+Mirage, na galeria Gomide&Co, em São Paulo. A exposição reúne sete “não-pinturas” feitas entre 1968 e 1971, nos primeiros anos do artista em Milão. Quatro delas nunca haviam sido mostradas no Brasil.
Organizada em parceria com a Sprovieri, de Londres, a mostra apresenta obras que pertenciam à coleção do marchand italiano Gió Marconi, à frente da Galleria Gió Marconi e da Fondazione Marconi. “Essa é uma coleção que nunca esteve à venda, mas há cerca de dois anos Marconi manifestou interesse em negociá-la”, conta o galerista Thiago Gomide ao NeoFeed.
A galeria britânica considerava que seria difícil lançar o conjunto no mercado sem apresentá-lo no Brasil, terra natal do artista. A estratégia funcionou: metade das obras foi vendida já na primeira semana.
Os trabalhos marcam o início da série The Illustration of Art (1971–78), considerada uma das mais importantes de Dias. Nessas pinturas, ele não oferece imagens; ele as subtrai. A superfície assume a aparência de uma página cuidadosamente diagramada.
Letras técnicas, inspiradas na tipografia Helvetica, organizam-se dentro de diagramas precisos. Ao apropriar-se da linguagem do design e da comunicação visual, Dias transforma em matéria crítica àquilo que, no cotidiano, circula como visualidade neutra.
Um exemplo é a grande tela Image/Mirage (1970), de dois por três metros: um vasto campo branco cortado ao centro por uma cruz fina. Uma borda preta emoldura a superfície e traz, acima, “IMAGE” e, abaixo, “MIRAGE”.
“O observador é incitado a encarar o enigma e, de algum modo, a tornar-se uma espécie de cocriador mental mobilizando aqueles poucos elementos que não por si só não bastam para dizer alguma coisa. É justamente nesse processo vivo da observação que as obras podem ganhar sentido”, explica o curador Gustavo Motta ao NeoFeed.
À primeira vista, Image/Mirage parece um jogo de linguagem. Motta, porém, acrescenta uma informação que adensa a leitura: “Mirage” era também o nome do caça supersônico francês Mirage III, usado na Guerra dos Seis Dias.
De repente, a cruz no centro da tela já não é apenas um sinal: é uma mira. O que parecia apenas linguagem ganha densidade política — indício do clima que levaria o artista ao autoexílio na Itália.
O avesso da pintura
Nascido em Campina Grande, na Paraíba, Antonio Dias mudou-se ainda adolescente para o Rio de Janeiro. Nos anos 1960, integrou a chamada Nova Figuração, grupo que se apropriou da estética pop para formular críticas diretas à ditadura militar. Nos trabalhos desse período, vísceras, sangue e órgãos transbordam da tela, numa materialidade agressiva.
Em 1966, diante do endurecimento do regime, Dias resolveu sair do país. Na Itália, entrou em contato com a pintura analítica, uma movimento que trazia para o centro da obra as próprias estruturas de sustentação da tela, os chassis.
Se antes as imagens saltavam da superfície, agora o movimento se inverte. Como sugere o curador, o artista expõe o avesso da pintura, tensionando seus limites formais com um amargor político vindo do Brasil.
“Dias remonta a uma experiência feita na periferia do capitalismo, da onde vem o contexto trágico desses quadros”, explica Motta. Em todas as obras, Dias trabalha visualmente com a ideia do que está dentro, no centro e o que está fora das margens.
Em Free Continent: Population (1968–69), Antonio Dias organiza a tela como um tabuleiro. Na borda preta, lê-se “Free Continent” e “Population”. No interior, 24 quadrados recebem respingos de tinta vermelha e preta — e quase todos carregam a palavra “Hungry”.
Um único quadrado, porém, fica sem inscrição. Como nos quebra-cabeças deslizantes, a estrutura depende dessa ausência. O jogo está ali, mas também a ideia de falta, de escassez.
“Ele se apropria de uma visualidade banal que, ao mesmo tempo, carrega a dimensão inventiva do jogo, das possibilidades abertas, e a interpreta politicamente”, afirma Motta. “Há ali a tentativa de ecoar uma potência política.” Não por acaso, entre as palavras que surgem nas telas estão memória, liberdade, território, fome.
A arte da profecia
A mostra reúne ainda documentos preservados pelo artista, hoje sob guarda do Instituto de Arte Contemporânea. Entre eles, recortes de jogos publicados em jornais, nos quais aparecem as margens gráficas apropriadas por Dias. Em The Tripper (1971), o procedimento se torna explícito: um jogo de ligar pontos desenha o contorno do mapa da Itália sobre o fundo negro.
Os documentos permitem um mergulho nesse “avesso” da obra — dimensão que também orienta a expografia assinada por Deysson Gilbert. Em vez de disfarçar a arquitetura da galeria com truques cenográficos, o artista decidiu jogar o mesmo jogo que Antonio Dias.
Estruturas metálicas, inspiradas nas linhas e nos signos de Dias, sustentam os documentos e mantêm exposto o verso das telas. Gilbert apropria-se também de uma das caixas de transporte das obras.
Image/Mirage surge quase como um outdoor, voltada para a rua. Mas é justamente sua embalagem que concentra o gesto mais incisivo da montagem. “A caixa cria um obstáculo à visão — um curto-circuito. Aquilo que normalmente facilita a circulação da obra, a embalagem, transforma-se em elemento que interrompe a circulação visual”, explica Motta.
Pintados há mais de cinquenta anos, esses trabalhos soam hoje quase premonitórios. Miras, alvos, territórios desertificados, vistas aéreas, imagens de satélite… Um vocabulário visual que passou a integrar o repertório cotidiano do presente.
Motta cita uma anotação de Walter Benjamin segundo a qual a história da arte seria uma história de profecias: previsões que só podem ser reconhecidas muito depois de formuladas. “Esses trabalhos talvez fossem plenamente legíveis no Brasil dos anos 1970, ou em alguns poucos lugares marcados por experiências de violência sistematizadas se faziam presentes. Hoje, essa estrutura tomou o planeta inteiro”, conclui o curador.


