Donald Trump determinou que uma das prioridades do seu governo é aumentar o acesso dos EUA a fontes de minerais críticos e terras raras BBC News fonte EPAD Donald Trump determinou que uma das prioridades do seu governo é aumentar o acesso dos EUA a fontes de minerais críticos e terras raras BBC News fonte EPAD

A ofensiva bilionária dos EUA para ficar com os minerais críticos do Brasil — e deixar China para trás

2026/03/13 19:02
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Donald Trump determinou que uma das prioridades do seu governo é aumentar o acesso dos EUA a fontes de minerais críticos e terras raras — Foto: BBC News fonte Donald Trump determinou que uma das prioridades do seu governo é aumentar o acesso dos EUA a fontes de minerais críticos e terras raras — Foto: BBC News fonte

Os Estados Unidos deram início a uma ofensiva bilionária para ter acesso às reservas de minerais críticos e de terras raras do Brasil.

Estima-se que o Brasil tenha entre 20% e 23% das reservas mundiais de terras raras, por exemplo, a segunda maior atrás apenas da China, e o país é tido como estratégico para o plano dos EUA de reduzirem sua dependência da China, principal produtora e processadora desses minerais.

Os minerais críticos, entre eles as terras raras, são um conjunto de elementos químicos considerados cruciais por serem necessários tanto em equipamentos utilizados para gerar e armazenar energia limpa como para a indústria eletrônica e militar.

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Entre eles, estão lítio, cobalto e nióbio. Eles são usados, por exemplo, na fabricação de baterias elétricas, ímãs para turbinas eólicas, chips eletrônicos, aviões, mísseis e satélites.

A BBC News Brasil apurou que a ofensiva americana ocorre em duas frentes: uma econômica e outra política, e envolve tanto investidores privados como setores do governo de Donald Trump como o Departamento de Guerra.

Na frente econômica, os EUA se preparam para ampliar os investimentos em companhias brasileiras ou estrangeiras que já detêm autorizações de pesquisa ou exploração de minerais críticos no país.

Nesse campo, os americanos estariam dispostos a investir "dezenas de bilhões de dólares" formando parcerias e até mesmo se tornando sócios de mineradoras que já atuam no país, mesmo que em fase embrionária, segundo apurou a BBC News Brasil com fontes a par do projeto.

Na frente política, o governo dos Estados Unidos quer que o governo brasileiro assine um acordo sobre o assunto o mais rápido possível.

Uma versão preliminar deste acordo foi enviada pela Embaixada dos Estados Unidos ao Ministério das Relações Exteriores (MRE) em fevereiro deste ano.

Uma fonte do governo brasileiro ouvida em caráter reservado confirmou que a proposta foi recebida pelo Itamaraty e que ela ainda está sendo analisada como parte da preparação de um encontro bilateral entre o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o presidente dos EUA, Donald Trump.

A reunião, que estava prevista para ser realizada em Washington neste mês, ainda não foi confirmada pelos dois governos.

No governo Lula, no entanto, a avaliação é de que o país não tem motivos para ter pressa em assinar o acordo com os americanos por conta da posição supostamente privilegiada do Brasil como detentor de uma matéria-prima desejada pelo governo Trump.

Além disso, o governo já se mostrou contrário ao desejo expressado pelos americanos de que países que façam acordo com os EUA fechem as portas para o mercado chinês.

Entre terras raras, estão estão lítio, cobalto e nióbio; na foto, uma mineradora de terras raras em Goiás — Foto: BBC News fonte Entre terras raras, estão estão lítio, cobalto e nióbio; na foto, uma mineradora de terras raras em Goiás — Foto: BBC News fonte

Corrida bilionária

A corrida econômica dos EUA em busca de acesso a fontes de minerais críticos ganhou impulso no Brasil a partir do ano passado, quando o governo americano passou a mapear empresas brasileiras e estrangeiras que já atuam na pesquisa e na extração de terras raras no Brasil.

Na época, uma análise do setor mostrava que o Brasil tinha apenas um projeto operacional de extração de terras raras e que praticamente toda sua produção, feita pela mineradora Serra Verde, em Goiás, era destinada à China.

Em setembro de 2025, os EUA anunciaram um aporte de US$ 5 milhões na mineradora Aclara, que tem ações listadas na Bolsa de Valores de Toronto, no Canadá. A empresa tem projetos de pesquisa sobre terras raras no município de Nova Roma, em Goiás.

O segundo grande movimento americano veio junto à mineradora Serra Verde. Em fevereiro deste ano, a empresa anunciou que recebeu um financiamento de US$ 565 milhões da Corporação Financeira dos Estados Unidos para o Desenvolvimento Internacional (DFC), uma agência do governo norte-americano para investimentos internacionais.

O dinheiro vai garantir aos americanos uma participação acionária na companhia e será usado, segundo anunciado, para o refinanciamento de linhas de crédito usadas pela companhia.

O investimento na Serra Verde era considerado estratégico para os americanos. Praticamente toda a exportação de terras raras do Brasil em 2025 foi produzido pela empresa e quase toda sua produção foi para a China.

Em 2025, por exemplo, o Brasil exportou US$ 12 milhões em terras raras, sendo que 99,4% desse total foi para compradores chineses.

Em dezembro, segundo a agência Reuters, a Serra Verde anunciou que encerraria o seu contrato de fornecimento para a China no final de 2026, adiantando em pelo menos sete anos o fim do vínculo com os chineses.

A BBC News Brasil questionou a mineradora se o fim do contrato estava relacionado ao investimento americano, mas não houve resposta.

Uma outra etapa da investida econômica dos americanos pelas terras raras brasileiras ocorrerá na quarta-feira (18/3), em São Paulo, onde o Consulado dos EUA vai organizar um fórum sobre minerais críticos para reunir empresários brasileiros e americanos, membros dos governos dos dois países e bancos de investimento.

Segundo a BBC News Brasil apurou, a estratégia é que surjam novas parcerias a partir do encontro de empresários e investidores com os responsáveis pelos projetos que estão sendo desenvolvidos no país.

No evento, representantes de mineradoras "juniors", que já detêm direitos minerários ou que estejam no processo de aquisição desses direitos junto às autoridades brasileiras, deverão apresentar seus projetos a investidores estrangeiros e a representantes do governo americano.

Essas empresas são chamadas de "juniors" porque são de pequeno porte e, na maioria das vezes, dependem de investimentos externos para saírem da fase de pesquisa e entrar na etapa operacional.

O foco dos investimentos está em projetos localizados em Goiás, Minas Gerais e Bahia.

Um dos requisitos para que os americanos façam esses investimentos é que essas mineradoras, quando em operação, priorizem o consumidor final dos EUA ou de seus aliados, restringindo o acesso da China a essas matérias-primas.

Apesar disso, representantes americanos e especialistas no setor avaliam que, ao menos em um primeiro momento, será difícil contornar a China como parte do negócio, uma vez que os EUA não teriam a capacidade técnica de refinar e processar alguns desses minerais, como, por exemplo, as terras raras.

"Os Estados Unidos vão ter que desenvolver capacidade de processamento de terras raras, porque hoje eles só conseguem refinar 11% da produção global", diz à BBC News Brasil o diretor de assuntos minerários do Instituto Brasileiro de Mineração (Ibram), Julio Nery.

A importância do assunto para o governo Trump é tão grande que há previsão de presença de representantes do Departamento de Guerra e do de Energia no fórum em São Paulo.

A preocupação militar com relação aos minerais críticos se explica pelo fato de que esses materiais são considerados essenciais para a construção de componentes eletrônicos usados em aviões, mísseis balísticos, entre outros equipamentos.

Mina de exploração de terras raras. Corrida global por minerais críticos coloca o Brasil na rota do interesse dos Estados Unidos e da China — Foto: BBC News fonte Mina de exploração de terras raras. Corrida global por minerais críticos coloca o Brasil na rota do interesse dos Estados Unidos e da China — Foto: BBC News fonte

Acordos e discordâncias

Na frente política, os americanos vêm tentando atrair o Brasil para assinar acordos sobre minerais críticos e terras raras, apesar da reticência do governo brasileiro.

Uma fonte com conhecimento do assunto disse à BBC News Brasil que a proposta de memorando de entendimento enviado ao Itamaraty é semelhante à que foi assinada entre os EUA e a Austrália em outubro de 2025.

O acordo com a Austrália previa: o estabelecimento de um preço mínimo para os minerais críticos para evitar manipulações de mercado como redução artificial do preço pago pelos compradores, o que prejudicaria os fornecedores; mudanças nas leis para acelerar os processos de licenciamento e permissão para exploração desses materiais; e mapeamento de novos projetos e reservas e investimento em projetos que tenham como destino final compradores localizados nos Estados Unidos ou na Austrália, em um esforço para diminuir a participação da China neste mercado.

A expectativa junto a oficiais do governo americano é que o Brasil sinalize se irá ou não assinar o acordo antes da viagem de Lula a Washington.

Uma fonte do governo brasileiro disse em caráter reservado à BBC News Brasil que o assunto já estaria sendo alvo de discussões em nível técnico com as equipes dos EUA que trabalham na preparação da visita a Trump.

Também em fevereiro, o governo americano realizou uma reunião com representantes de 54 países sobre o assunto para propor uma zona de comércio preferencial para minerais críticos e terras raras.

Essa zona conteria mecanismos para evitar manipulações de mercado supostamente praticadas pela China.

O governo brasileiro, no entanto, enviou uma delegação de menor peso diplomático, para evitar a impressão de comprometimento com a proposta.

Interlocutores do presidente Lula, no entanto, veem a movimentação americana sobre o assunto com reservas.

O primeiro motivo é que o Brasil não estaria disposto a participar de uma iniciativa para dar exclusividade na exportação de terras raras para os EUA ou seus aliados.

Segundo um desses interlocutores, a tradição diplomática brasileira não é de alinhamentos automáticos e limitar os clientes para qualquer produto brasileiro seria prejudicial ao país, especialmente em se tratando da China, principal parceiro comercial do Brasil e maior comprador de terras raras brasileiras nos últimos dois anos.

O segundo motivo seria o desejo do governo de conseguir parceiros nesse segmento que se comprometam a investir no processamento das terras raras em território brasileiro, para evitar o tradicional modelo em que o Brasil exporta commodities e compra produtos acabados mais caros.

"Queremos repensar o papel da exploração dos recursos naturais e fortalecer as cadeias produtivas dos nossos territórios", disse Lula na segunda-feira (9/3), em Brasília, durante a visita do presidente da África do Sul, Cyril Ramaphosa.

"Já está avisado que o Brasil não vai fazer aquilo que foi feito com o minério de ferro. A gente vendeu minério para comprar produtos acabados pagando cem vezes mais caro. Agora, a parceria será para fazer os processos de transformação aqui no Brasil."

Brasil entre gigantes

Especialistas ouvidos pela BBC News Brasil avaliam que os movimentos dos EUA no Brasil fazem parte de uma disputa geopolítica mais ampla.

O aumento do acesso americano a fontes de minerais críticos é um dos pilares da política externa do governo Trump. Essa prioridade ganhou ainda mais destaque depois que a China suspendeu a exportação desses produtos para os Estados Unidos logo após Trump impor sanções tarifárias a produtos chineses.

A medida chinesa foi vista como uma retaliação e colocou em risco parte da indústria de alta tecnologia instalada nos Estados Unidos. Após negociações, os chineses voltaram a exportar os minerais para os americanos, mas a suspensão ligou um sinal de alerta no governo Trump.

O alerta foi tão alto que fez com que o tema fosse abordado na Estratégia Nacional de Segurança, um documento divulgado anualmente com as prioridades de segurança nacional dos EUA. Na edição do ano passado, os minerais críticos foram citados três vezes.

"Nós devemos reassegurar a nossa independência e acesso confiável a bens que precisamos para nos defender e preservar nosso modo de vida. Isto vai requerer expandir o acesso americano a minerais e materiais críticos enquanto combatemos práticas predatórias econômicas", diz um trecho do documento.

Elena Rodriguez, professora do Instituto de Relações Internacionais da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, diz que o curso das negociações entre Brasil e Estados Unidos "não é só uma aproximação comercial comum".

"É uma corrida geopolítica muito bem estruturada", afirma Rodrigues, diretora do think tank Brics Policy Center, destinado a estudar os membros do bloco Brics, do qual fazem parte 11 países, entre eles o Brasil, China, Rússia, Índia e África do Sul.

"Isso ficou bem claro em fevereiro, na reunião ministerial de minerais críticos. O objetivo ali foi explícito: redesenhar o mercado global e criar rotas de suprimento seguras e variadas para tentar equilibrar o jogo contra a China, diminuindo a dependência que o mundo hoje tem do controle chinês."

Rodriguez explica que os EUA tentam diminuir sua dependência da produção e processamento de terras raras e minerais críticos em relação à China, porque "quem controla esses recursos e, principalmente, quem detém a tecnologia para processá-los, dita as regras do jogo na transição energética e na indústria de defesa e tecnologia do século 21".

"A China entendeu isso há décadas e construiu uma posição dominante. Agora, os EUA estão reagindo com uma política industrial e externa agressiva para tentar reequilibrar essa balança", diz a professora.

A demanda por esses minérios deve crescer 1500% até 2050, segundo relatório da Unctad, a agência de desenvolvimento das Nações Unidas. Trata-se de um volume acima da capacidade atual de produção.

Julio Nery, do Ibram, diz que a principal preocupação dos EUA nas tratativas com o Brasil é uma só: "Eles querem garantia de fornecimento".

"Recentemente, a China suspendeu o fornecimento de terras raras para os EUA. Se você não tem o controle sobre esse tipo de produto, você fica sem condições de fabricar seus produtos mais avançados", afirma Nery.

Em meio a essa disputa geopolítica, Sidney Ribeiro, professor do Instituto de Química da Universidade do Estado de São Paulo (Unesp), diz que o Brasil precisa considerar suas próprias necessidades e mudar o modelo de exportação de commodities.

"O alvo [dessa disputa geopolítica] são nossas reservas. As recentes iniciativas de exploração em Goiás e Minas Gerais, infelizmente, estão voltadas ao envio do minério bruto para o exterior. [É preciso] investir para reverter a situação atual", afirma Ribeiro.

Nery faz uma avaliação semelhante. Não seriam apenas os americanos que estão interessados em fazer acordos com o Brasil e que, por isso, o país precisa avaliar as melhores propostas.

"Claro que eles [os Estados Unidos] têm interesse em fazer o acordo aqui. Mas outros países também querem. Temos a Europa, o Japão, entre outros", afirma Nery.

"A gente tem que levar em consideração que o bom para o Brasil é se a gente conseguir manter essa diversidade [de compradores] e aproveitar o fato de que não temos inimigos e podemos negociar com todo mundo."

Procurado pela BBC News Brasil, o Palácio do Planalto, o MRE e a Embaixada dos Estados Unidos não responderam às questões enviadas.

Em nota, o Ministério de Minas e Energia (MME) disse que está "aberto ao diálogo e à cooperação com iniciativas internacionais que contribuam para uma cadeia global de minerais críticos mais resistente, transparente e sustentável" e que atuação brasileira no setor é pauta em conversas "com diferentes parceiros, incluindo Estados Unidos, União Europeia, China e outros atores estratégicos".

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