O vírus da catapora pertence à família dos herpesvírus, um grupo com uma característica bastante peculiar: a capacidade de usar os próprios "trilhos" internos dos neurônios para se locomover pelo sistema nervoso — Foto: Ruslanas Baranauskas/Science Photo Library via Getty Images
Um caso clínico documentado em 2016 ajudou a mudar a forma como neurologistas encaram o vírus responsável pela catapora e pelo herpes-zóster. Um imunologista de 63 anos do estado americano do Colorado passou quatro anos com perda progressiva de memória, dificuldade de concentração e problemas para concluir frases ao dar aulas. Exames convencionais, incluindo biópsia cerebral, não identificaram a causa.
A virada veio quando o próprio paciente associou seus sintomas a um episódio anterior de herpes-zóster e decidiu se tratar com aciclovir, um antiviral comum para esse tipo de infecção. O resultado surpreendeu seus colegas: a cognição voltou ao normal, segundo reportagem da revista Wired.
O episódio impulsionou uma linha de pesquisa que vem crescendo nos últimos anos e que aponta para uma conexão preocupante entre o vírus da catapora e o envelhecimento do cérebro.
Quem teve catapora na infância carrega o vírus para o resto da vida. Depois da infecção inicial, ele não é eliminado pelo organismo: migra silenciosamente para o sistema nervoso e fica adormecido por anos ou até décadas. Nos Estados Unidos, antes da introdução da vacina contra catapora em 1995, mais de 90% das crianças eram infectadas.
O problema é que esse vírus pode acordar. Situações de estresse intenso, pancadas na cabeça, uso de remédios que enfraquecem o sistema imunológico, infecção por Covid-19 ou simplesmente o envelhecimento natural do corpo são gatilhos conhecidos. Quando isso acontece, o resultado mais visível costuma ser o herpes-zóster, aquela erupção dolorosa que aparece em adultos mais velhos, geralmente em faixa no tronco ou no rosto.
Mas, em muitos casos, o vírus se reativa sem causar nenhum sintoma visível. A pessoa não sente nada e nem imagina que o vírus voltou a circular no organismo.
"Dependemos de células imunes especializadas para patrulhar continuamente o sistema nervoso e manter o vírus adormecido", afirmou Tian-Shin Yeh, professora associada de medicina da Taipei Medical University e médica do Shuang Ho Hospital em Taiwan, à Wired. "À medida que envelhecemos, essas células podem perder eficiência."
O vírus da catapora pertence à família dos herpesvírus, um grupo com uma característica bastante peculiar: a capacidade de usar os próprios "trilhos" internos dos neurônios para se locomover pelo sistema nervoso. É como se o vírus sequestrasse o mecanismo de transporte das células nervosas para chegar a destinos cada vez mais profundos no organismo, incluindo o cérebro.
Uma vez lá dentro, ele pode danificar o material genético e as estruturas responsáveis pela produção de energia das células cerebrais, acelerando o processo de envelhecimento. Há também evidências de que o vírus consegue infectar os vasos sanguíneos que abastecem o cérebro, provocando inflamação e estreitamento dessas artérias.
Para Andrew Bubak, professor assistente de neurologia da Universidade do Colorado Anschutz, esse mecanismo explica o risco elevado de AVC observado em pacientes com herpes-zóster. Estudos apontam aumento de 80% nas chances de acidente vascular cerebral no primeiro mês após a manifestação da doença, com o risco ainda 20% acima da média um ano depois. Bubak também associa o vírus à demência vascular. "É um acelerador significativo", disse. "As evidências indicam que o vírus provoca inflamação nos vasos cerebrais, o que impulsiona o comprometimento cognitivo em idosos."
Há ainda uma camada extra de risco: o vírus da catapora pode "despertar" outro herpesvírus que também fica adormecido no organismo, o HSV-1, mais conhecido como o causador da herpes labial. Esse segundo vírus já foi associado, em estudos epidemiológicos, à doença de Alzheimer. Na prática, uma única reativação poderia colocar dois vírus em circulação no cérebro ao mesmo tempo. "O que a vacina contra herpes-zóster pode estar fazendo é, possivelmente, prevenir a reativação do vírus da catapora, mas talvez ainda mais importante, a reativação do HSV-1", afirmou Dana Cairns, pesquisadora da Universidade Tufts.
Em abril de 2025, um estudo de pesquisadores da Universidade Stanford sugeriu que a vacina contra herpes-zóster poderia prevenir um em cada cinco novos casos de demência. Outras pesquisas recentes associaram a vacina a um ritmo mais lento de envelhecimento biológico em diferentes marcadores clínicos.
Atualmente, a vacina é recomendada para adultos acima dos 50 anos. Bubak defende que esse limite deveria ser revisto e que doses de reforço ao longo da vida poderiam ser necessárias para manter o vírus sob controle de forma mais eficaz. Ele também propõe o desenvolvimento de testes rápidos de saliva capazes de detectar reativações silenciosas do vírus em momentos de estresse elevado. "O vírus responde muito bem aos antivirais", afirmou à Wired. "E são medicamentos seguros."
Pesquisadores da Universidade Tufts investigam ainda se suplementos antioxidantes, como o resveratrol e compostos presentes no chá verde, poderiam ajudar a reduzir os danos cerebrais causados pela reativação do vírus. Os dados, porém, ainda são preliminares.
Para especialistas na área, vacinar crianças contra a catapora, o que expõe o organismo apenas a uma versão enfraquecida do vírus, pode ter impacto direto sobre as taxas de demência nas próximas décadas. Quem é vacinado nunca é infectado pela versão selvagem do vírus, o que reduz o risco de reativações futuras.
Andrew Pollard, professor de infecção e imunidade da Universidade de Oxford, defende que o momento ideal para a vacinação contra herpes-zóster ainda precisa ser melhor investigado, inclusive a possibilidade de oferecê-la mais cedo na vida adulta. "Esses achados fascinantes podem ampliar as possibilidades de envelhecermos com menos declínio cognitivo e com menor pressão sobre os sistemas de saúde", disse. "Com o número de pessoas acima de 65 anos prestes a dobrar neste século, qualquer fator que ajude a reduzir o declínio neurológico tem grande importância."
Para Bubak, o impacto do vírus da catapora sobre o cérebro ainda é "totalmente subestimado", e mudar esse quadro depende tanto de mais pesquisa quanto de políticas de vacinação mais abrangentes.

