Enquanto líderes europeus priorizam defesa da Groenlândia, Trump estabelece Conselho da Paz com novo leque de aliadosEnquanto líderes europeus priorizam defesa da Groenlândia, Trump estabelece Conselho da Paz com novo leque de aliados

Davos marcou o reconhecimento do fim a ordem mundial do pós-2ª Guerra

2026/01/27 17:00

Líderes mundiais reconheceram formalmente o fim da ordem mundial caracterizada pelo multilateralismo estabelecido depois da 2ª Guerra Mundial durante o evento anual do Fórum Econômico Mundial em Davos, na Suíça, que encerrou na 6ª feira (23.jan.2026). Para os representantes da Europa e do Canadá, é necessário mudar a atitude diante do viés agressivo adotado por países como os Estados Unidos.

O reconhecimento dessa ruptura responde às transformações no cenário global que incluem tensões comerciais entre potências, disputas territoriais em diferentes regiões e o enfraquecimento progressivo de organizações fundadas depois do fim da 2ª Guerra Mundial, em setembro de 1945. Durante o restabelecimento de uma cooperação internacional depois do conflito, foram estabelecidas a ONU (Organização das Nações Unidas), em outubro de 1945, e a Otan (Organização do Tratado Atlântico Norte), em abril de 1949.

Os conflitos comerciais entre potências mundiais, disputas territoriais e o progressivo enfraquecimento das instituições internacionais contribuíram para o colapso do modelo globalista que prevaleceu por mais de 70 anos.

Ursula Von der Leyen (União Democrata-Cristã, centro-direita), presidente da Comissão Europeia, o presidente da França, Emmanuel Macron (Renascimento, centro) e o premiê canadense, Mark Carney (Partido Liberal do Canadá, centro-esquerda), descreveram o momento como uma “ruptura” violenta. O Fórum de Davos se deu em um momento em que o presidente norte-americano Donald Trump (Partido Republicano) ameaça controlar a Groenlândia, território autônomo da Dinamarca.

As advertências do republicano têm causado um grande desgaste nas relações diplomáticas e comerciais entre os Estados Unidos e países da União Europeia –historicamente aliados que colaboram por meio da Otan. Na 4ª feira (21.jan), Trump disse que não pretende usar força para controlar a região, mas disse que, se quisesse, “ninguém conseguiria impedir”. 

As declarações preocupam outros chefes de Estado. Von der Leyen defendeu a correção do que definiu como “dependências estruturais” da Europa e enfatizou a necessidade de maior autonomia no continente.

“A nostalgia não trará de volta a velha ordem, e ganhar tempo e ter esperança de que as coisas revertam logo não corrigirá as dependências estruturais que temos”, declarou. “Se essa mudança é permanente, então a Europa deve mudar permanentemente também. É hora de aproveitar esta oportunidade e construir uma nova Europa independente”, afirmou von der Leyen em Davos.

Um dos principais destaques do caminho em direção a essa independência, segundo Von der Leyen, foi o recente acordo do bloco com o Mercosul, assinado depois de 26 anos de negociações. Em uma menção indireta a Trump, a presidente da Comissão Europeia afirmou que o acordo simboliza uma escolha política clara: “Comércio justo em vez de tarifas, parceria em vez de isolamento e sustentabilidade em vez de exploração”. 

A líder europeia segue usando um tom conciliador ao se referir aos Estados Unidos. Segundo ela, a insistência do presidente pelo controle groenlandês beneficia somente “os adversários que a Europa e os EUA têm em comum”.

Já Emmanuel Macron alertou para uma “mudança em direção a um mundo sem regras”, mencionando “ambições imperialistas” e um cenário “sem governança coletiva eficaz”. Ele defendeu o “Estado de direito à brutalidade”.

O presidente da França também condenou as tarifas de retaliação impostas Estados Unidos contra países europeus e defendeu a presença militar de seu país na Groenlândia. Ele explicou que a ação visa a “apoiar um aliado em outro país europeu”, referindo-se à Dinamarca.

Mark Carney, primeiro-ministro canadense, descreveu o momento como “uma ruptura na ordem mundial, o fim de uma ficção confortável e o início de uma realidade dura”. Ele alertou sobre um mundo de “fortalezas” e disse: “Não estamos em uma transição, estamos em uma ruptura”. Declarou ainda que “a velha ordem não vai voltar” e concluiu que “a nostalgia não é uma estratégia”.

O presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, afirmou durante seu discurso em Davos que o mundo e a Europa mudam em velocidades distintas. Destacou que a maioria dos países europeus integrantes da Otan não buscava atingir investimentos de 5% do PIB (Produto Interno Bruto) em defesa até receber pressão dos Estados Unidos. 

Zelensky defendeu que o continente europeu precisa desenvolver autonomia para assegurar sua própria proteção. O presidente descreveu a Europa como um “caleidoscópio fragmentado de pequenas e médias potências em vez de uma força política global”. Para o mandatário, o continente ainda se define mais por sua geografia e tradição do que como uma potência real.

Além disso, o ucraniano questionou a estabilidade da Otan: “Atualmente, a Otan existe graças à crença de que os Estados Unidos agirão [em caso de ataque]. Mas e se não agirem?”

Em seu discurso, concluiu que uma nova ordem mundial depende de ações concretas e “não pode ser construída apenas com palavras”.

Outro líder que também abordou a ordem mundial no evento foi Friedrich Merz. O chanceler da Alemanha afirmou que “a paz na montanha mágica de Davos contrasta fortemente com um mundo cuja velha ordem está se desfazendo a um ritmo impressionante”. Também declarou que alicerces do direito internacional, que sustentaram as últimas 3 décadas, estão abalados. 

“Este novo mundo de grandes potências está sendo construído sobre o poder, sobre a força e, quando necessário, sobre a coerção”, disse. 

Merz também citou as exigências recentes dos EUA sobre a Groenlândia como um exemplo de rivalidade e demonstração de força. “Nos últimos dias, o governo dos Estados Unidos tem exigido veementemente maior influência na Groenlândia. […] Essa ameaça, por si só, é uma expressão de grande poder e rivalidade”, declarou

O chanceler afirmou que as nações democráticas devem reconhecer e exercer o valor do seu próprio poder político e militar. Ele defendeu o aumento das capacidades militares da Alemanha como uma forma essencial de afirmar a soberania do país. “Não devemos mais confiar apenas no poder dos nossos valores. Devemos também reconhecer o valor do nosso poder […]. Aumentar nossas capacidades militares significa afirmar nossa soberania”, disse Merz.

TRUMP NA CONTRAMÃO

Alvo de críticas, Donald Trump questionou as alianças multilaterais, como a Otan, e o que considera responsabilidades desproporcionais assumidas por seu país. Em sua manifestação, expressou insatisfação ao afirmar que “os Estados Unidos mantiveram o mundo inteiro à tona”, recebendo “muito pouco em troca” dos aliados.

Mesmo com a insatisfação de aliados europeus, ele voltou a insistir que os EUA precisam controlar a Groenlândia por motivos de “segurança nacional” e negou que o interesse tenha a ver com terras-raras. Defendeu que o governo norte-americano tem uma política de “centenas de anos” de conter ameaças ao seu território.

Trump planeja a construção do chamado Domo de Ouro na Groenlândia, sistema de defesa para proteger o país de mísseis. O custo estimado do projeto é de US$ 175 bilhões.

O norte-americano também citou a 2ª Guerra Mundial (1939-1945) para defender o controle da Groenlândia. Afirmou que os EUA foram obrigados a enviar soldados para proteger a Dinamarca e o território, mas foram “burros” de “devolver” a região depois do conflito.

Recém-fundador do Conselho da Paz, onde terá presidência vitalícia e o único com poder de veto, Trump formalizou em Davos um novo leque de aliados políticos. Com exceção da Hungria e da Bulgária, nenhum deles integra a União Europeia. De acordo com o relatório Freedom in the World, dos 26 países que integram o grupo, 12 têm governos considerados autoritários.

Sob o comando do presidente Javier Milei (La Libertad Avanza, direita), a Argentina se firmou como um dos integrantes fundadores do Conselho da Paz. Ecoando a posição do republicano durante seu discurso em Davos, o líder argentino atacou o que denominou “políticas socialistas elegantemente embaladas” promovidas por entidades multilaterais.

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