Kateryna Slinko fugiu da guerra e chegou ao país em 2022; afirma que optou por ficar longe da Ucrânia porque se ficasse perto, teria vontade de voltarKateryna Slinko fugiu da guerra e chegou ao país em 2022; afirma que optou por ficar longe da Ucrânia porque se ficasse perto, teria vontade de voltar

“Não é só geopolítica”, diz refugiada ucraniana no Brasil

2026/02/25 00:51
Leu 8 min

Desde que a guerra entre Rússia e Ucrânia começou, exatos 4 anos atrás, 721 pessoas entraram no Brasil como refugiadas do conflito ou com pedidos de ajuda humanitária, de acordo com dados do Ministério da Justiça. Até 19 de fevereiro de 2026, cerca de 5,9 milhões de pessoas tinham deixado a Ucrânia. Quase todos (5,3 milhões) foram para países da Europa. Outras 549 mil deixaram o continente.

A professora da UENP (Universidade Estadual do Norte do Paraná) Kateryna Slinko chegou ao Brasil no 2º semestre de 2022. Ela trabalha com direitos humanos desde antes de deixar seu país. Ainda na Ucrânia, fundou há cerca de 15 anos uma ONG que prestava auxílio a crianças com deficiência. Natural de Kharkiv, ela relata que foi uma decisão muito difícil deixar o país, mas necessária por conta das duas filhas.

Para ela, o conflito não é só “uma questão geopolítica”, mas são pessoas comuns que sofrem com as consequências da guerra. Em entrevista ao Poder360, Slinko conta como tem sido sua vida no Brasil e o que pensa sobre a guerra.

Leia a íntegra da entrevista abaixo: 

PODER360 – Como foi o momento da decisão sobre sair da Ucrânia? Foi logo no começo de 2022?
Katerina Slinko – 
Eu morava a 40 km da Rússia e trabalhava com direitos humanos de grupos vulneráveis, especialmente crianças. Também sou fundadora de uma organização para pessoas com deficiência na Ucrânia. Trabalhamos por 15 anos com crianças com deficiência. Foi muito difícil deixar meu trabalho voluntário. Mas tenho duas filhas que hoje têm 6 e 12 anos, que no início da guerra tinham 3 e 9. Nossa cidade sofreu muito, e nossa casa foi destruída. Decidimos sair porque as crianças estavam há 5 meses em casa ou em abrigos, sem educação regular e com problemas de conexão. Precisávamos mudar de país.

Como vocês escolheram o Brasil?
Tínhamos oportunidades em outros países também, como Itália e China, para trabalhar como professoras visitantes. Hoje, trabalho na Universidade Estadual do Norte do Paraná como professora visitante e pesquisadora. Recebemos muitas mensagens de colegas da UENP e de Araucária (PR), pelas quais somos muito gratos, dizendo: “Esperamos vocês aqui com as crianças, não se preocupem, vamos ajudar”. Gosto muito do Brasil, do coração dos brasileiros, que é muito aberto. Isso influenciou nossa decisão. Também quis ficar longe da Ucrânia, porque sei que sempre teria vontade de voltar.

Como foi o processo de visto?
Existe um programa para pesquisadoras ucranianas, ligado a fundações e universidades. Essa oportunidade permitiu que eu continuasse minha pesquisa aqui no Brasil e também falasse sobre a Ucrânia.

Seu visto é diferente do de refugiados?
Sim. Mas quero dizer que, para quem vive a guerra, o mais importante é o apoio emocional e psicológico. Não precisamos apenas de doações materiais. O mais importante é dar visibilidade à nossa luta e defender a democracia. Grupos mais vulneráveis, como mulheres e crianças, enfrentam muitas dificuldades. Quando chegamos aqui, minhas filhas não falavam português. A menor tinha 3 anos e dizia “mãe, eu quero água”, mas ninguém entendia. Ou “quero ir ao banheiro”, e ninguém compreendia. Com o tempo, elas aprenderam. Mas a adaptação é difícil para refugiados.

Como foi o papel do governo brasileiro?
No Paraná, existe um programa para apoiar cientistas, chamado Fundação Araucária. Isso garante certa independência financeira, o que é muito importante. Cerca de 25 pesquisadoras ucranianas participam do programa. Não sei se há programas semelhantes em outros Estados.

Você pode contar como foi quando a guerra começou?
Nas primeiras semanas, nossa cidade foi muito atacada. Às 4h30 da manhã, acordamos com explosões. Fomos imediatamente para o abrigo. Nossa vida mudou naquele momento. Os supermercados e farmácias ficaram vazios. Eu e minhas colegas voluntárias ajudávamos na evacuação de pessoas. Quando você está em emergência, não percebe a depressão. Precisa ajudar sua família e seus vizinhos. Depois que chegamos ao Brasil, meses depois, senti uma depressão muito forte. Meu pai e meus amigos continuam lá. Falo com meus alunos na universidade sobre os crimes de guerra. Chegamos ao Brasil no fim de agosto de 2022.

Você pensa em voltar para a Ucrânia?
Agora não. As crianças estão bem adaptadas [no Brasil]. Na minha cidade, há falta de eletricidade quase todos os dias. A educação é, em grande parte, on-line ou em abrigos. Existem escolas no metrô, onde as crianças estudam em alguns dias da semana. Cerca de 75% das crianças apresentam algum problema psicológico. Meus pais continuam lá. Falo com eles sempre que há conexão. É difícil para pessoas idosas deixarem tudo para trás.

Qual é a impressão dos ucranianos sobre os russos?
É difícil separar completamente. Há russos contra a guerra, sim. Mas também existe muita propaganda nas escolas russas a favor da guerra, inclusive para adolescentes. Não são todos os russos responsáveis, mas para quem sofre a agressão diariamente, é muito difícil não sentir dor.

Como tem sido sua vida no Brasil?
Participo do projeto Pastoral da Criança há 2 anos. Acho o SUS um programa muito bom, mas muitas pessoas não conhecem seus direitos. Há muitos programas positivos no Brasil. Na universidade também há muitas oportunidades para alunos. Meu sogro, Serhiy Slinko, chegou em novembro do ano passado e também trabalha como professor visitante. Estamos todos juntos aqui.

Como foi a adaptação ao português?
Estudamos on-line no último mês antes de sair da Ucrânia, mas é difícil. Dou aulas em inglês, então não pratico tanto. Mas estamos estudando.

Existe uma comunidade ucraniana forte no Paraná?
Sim, principalmente em Curitiba. Tenho contato com pesquisadores ucranianos aqui.

O que você gostaria que a imprensa mostrasse sobre a guerra que não é mostrado?
É importante dar visibilidade aos crimes de guerra, inclusive à violência sexual. Até hoje, 628 crianças morreram. As pessoas precisam olhar com os olhos das vítimas. Não é apenas uma questão geopolítica. São mães, idosos, pessoas comuns. Minha mãe chora todos os dias. Precisamos falar sobre as pessoas comuns da Ucrânia.

O COMEÇO DA GUERRA

A Ucrânia é um Estado independente desde 1991, com o fim da União Soviética. Foi reconhecida internacionalmente, inclusive pela Rússia, de quem se manteve dependente economicamente mesmo após a emancipação. Ao longo dos anos, os ucranianos passaram a se alinhar politicamente com a União Europeia e a Otan. 

A Ucrânia foi convidada para integrar a Otan em 2008. A possível adesão à aliança militar formada por países europeus e pelos EUA foi um ponto decisivo na guerra entre Rússia e Ucrânia. O presidente russo, Vladimir Putin, considera uma ameaça ter a Otan tão próxima de suas fronteiras. Consequentemente, a Rússia começou a sua anexação de territórios ucranianos com a península da Crimeia, em 2014.

A escalada do conflito veio em 2021 com a mobilização de um contingente militar russo na Ucrânia e em Belarus, sob a justificativa de realizar exercícios militares. Putin exigiu que a Ucrânia não integrasse a Otan. O país foi invadido pela Rússia em 24 de fevereiro de 2022 –Moscou não chama a invasão de guerra, mas de “operação especial”.

O presidente ucraniano, Volodymyr Zelensky, procurou apoio internacional.

O auxílio chegou na forma de armamentos, capital e refúgio. Mais de 20 países enviaram ajuda, como EUA, França, Alemanha e Holanda, mas nenhum Estado se envolveu diretamente no conflito até o momento a favor dos ucranianos. No lado russo, a Coreia do Norte enviou tropas para ajudar as forças de Putin.

CRISE DE REFUGIADOS

Até 19 de fevereiro de 2026, cerca de 5,9 milhões de pessoas tinham deixado a Ucrânia para fugir do conflito armado. Quase todos (5,3 milhões) foram para países da Europa como refugiados. Outras 549 mil pessoas foram para outros países fora do continente.

Polônia e República Tcheca foram os países que receberam o maior número de refugiados, com 977 mil e 398 mil, respectivamente. Os dados são do ODP (Portal Operacional de Dados), site que agrupa dados da Agência da ONU para Refugiados.

De acordo com o Acnur (Alto Comissariado das Nações Unidas para os Refugiados), a estimativa é que aproximadamente 76% dos refugiados são mulheres e crianças. Os dados são baseados no cruzamento de informações de fronteiras, monitoramento, registros de proteção temporária e perfis demográficos em países que recebem os ucranianos. Essa predominância acontece porque muitos homens em idade militar ficaram no país.

REFUGIADOS UCRANIANOS NO BRASIL

O Brasil foi um dos países de fora da Europa que recebeu refugiados. O pico foi em 2022.

Duas organizações estavam à frente da ajuda para a vinda dos ucranianos: a PIB (Primeira Igreja Batista) Curitiba e a ABASC (Associação Batista de Ação Social). O Paraná foi o principal destino escolhido pelos refugiados ao vir para o Brasil. O Estado tem a maior concentração de descendentes de ucranianos no país. 


Leia mais sobre a guerra na Ucrânia:

  • Guerra na Ucrânia completa 4 anos; é a mais longa na Europa desde 1945
  • Mais de 50 brasileiros morreram ou desapareceram na guerra da Ucrânia
  • Ucrânia e Rússia divergem sobre conflito e negociações

Esta reportagem foi produzida pelos trainees em jornalismo do Poder360 Maria Eduarda Lourenço, Maria Eduarda Severiano e Nícolas Proença sob a supervisão de Brunno Kono.

Oportunidade de mercado
Logo de PortugalNationalTeam
Cotação PortugalNationalTeam (POR)
$0.7733
$0.7733$0.7733
+1.24%
USD
Gráfico de preço em tempo real de PortugalNationalTeam (POR)
Isenção de responsabilidade: Os artigos republicados neste site são provenientes de plataformas públicas e são fornecidos apenas para fins informativos. Eles não refletem necessariamente a opinião da MEXC. Todos os direitos permanecem com os autores originais. Se você acredita que algum conteúdo infringe direitos de terceiros, entre em contato pelo e-mail [email protected] para solicitar a remoção. A MEXC não oferece garantias quanto à precisão, integridade ou atualidade das informações e não se responsabiliza por quaisquer ações tomadas com base no conteúdo fornecido. O conteúdo não constitui aconselhamento financeiro, jurídico ou profissional, nem deve ser considerado uma recomendação ou endosso por parte da MEXC.